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Rafael Birmann, por uma cidade mais humanizada

Presidente da Birmann S.A, Rafael Birmann tornou-se referência com mais de 20 empreendimentos corporativos que impactaram a cidade.

por Judite Scholz | foto Rodolfo Goul

Rafael Brimann - Jornal aQuadra
Rafael Birmann

Sua última criação, o B32, na avenida Faria Lima, trouxe a proposta de mudar para melhor a relação das pessoas que vivem e frequentam a região.

Com áreas abertas, repletas de cadeiras e espreguiçadeiras, que convidam as pessoas a usufruírem do espaço, restaurante, área de artes, teatro e uma enorme escultura de baleia, vai na contramão da maioria dos empreendimentos que utilizam muros, espetos e espelhos d’água para impedir o acesso

Como o urbanismo é tratado em São Paulo?
Em geral, o urbanismo é mal compreendido e maltratado no Brasil. Antigamente, as cidades eram bonitas, agradáveis, mas depois que os nossos experts decidiram reinventar a roda e começaram a impor regras em tudo, vieram as consequências inesperadas. É como diz Bastiat em “O que se vê e o que não se vê”, o que está por trás das boas intenções. Outro problema é a criminalidade, a falta de civilidade, a falta de um governo que forneça transporte, educação, segurança. Isso tudo resulta no urbanismo. Acho que o Brasil não consegue enfrentar, ter uma discussão lúcida, inteligente, é muito decepcionante. 

Como o senhor vê o Plano Diretor, que abriu a construção de tantos prédios que estão transformando bairros inteiros?
O Plano Diretor criou os próprios problemas, que agora diz estar resolvendo. Antes de qualquer Plano Diretor, tinha tudo o que a gente sempre quis ter: conexão com a rua, fachada ativa, etc. – o Conjunto Nacional, feito nos anos 1950, é um bom exemplo. Hoje, ao projetar um prédio, não se pode pensar nada, só seguir as regras, não podemos usar a nossa criatividade para resolver os problemas que surgem. Sou meio libertário nessas definições, o plano é muito restritivo, como todas nossas leis são detalhadas, restritivas e dúbias.

O B32, na Faria Lima, traduz o que o senhor acredita: sustentabilidade, lazer, área aberta para a rua?
Eu acredito no urbanismo que preserve ou que estimule a dignidade do cidadão. A dignidade é a pessoa ter um espaço em que se sinta bem, que seja agradável para ela. O urbanismo é a cidade, mas também são os momentos da vida na cidade, como se convive com tudo: você caminhar daqui até ali e desfrutar de coisas bonitas, sentar, olhar uma vitrine, encontrar trabalho, lazer, cultura, saúde, tudo envelopado no conceito de um bom urbanismo. Aqui a gente tentou.

E conseguiu, não é?
Conseguimos bastante, mas não adianta a gente conseguir se os outros não conseguem. A lógica por trás do urbanismo é a externalidade positiva: eu faço um prédio, crio um ambiente agradável para as pessoas que estão longe dos meus inquilinos. Para que eu faço isso se não me pagam nada? Faço porque o outro vai fazer outra coisa também que eu não vou pagar para ele e, no conjunto, todo mundo fez e a cidade ficou agradável para todos. Se todos fizerem, eu estou recebendo também. Resume a motivação de quem quer um bom urbanismo, ou seja, eu quero um bom urbanismo para morar em uma cidade que eu goste.

O que a gente chama de cidade melhor são, em parte, essas pequenas coisas, pequenos gestos, pequenas atitudes

E que valoriza o entorno?
O arquiteto Didi Pei mandou uma carta dizendo que iria “fazer um projeto tão maravilhoso que vai valorizar toda a vizinhança”. Um sócio comentou: “que absurdo, nós estamos pagando para ele valorizar os outros”! É preciso compreender a extensão do que se está fazendo. Valorizar o outro não é uma atitude altruísta, é um egoísmo inteligente.

O B32 tem alguns conceitos que a gente não encontra facilmente, não é?
Ao fazer o projeto, andei pela avenida Faria Lima com o paisagista, e percebemos que não há prédios com urbanismo integrado à cidade. Os prédios têm cerca para afastar as pessoas, o viário é dominante, não há lugar para sentar afim de evitar que mendigos ocupem – deixa sentar o mendigo, qual é o problema? Quando falo em paisagismo, é paisagismo humano, um bom ambiente para as pessoas. Nossos projetos são dominados pela visão que chamamos de paisagismo mas que é jardineira – jardins com belos desenhos – e viário, que não segue as instruções dos experts do trânsito. No B32, limitamos o acesso de carros nas bordas, sendo externo, não cruza o prédio porque há uma área pública, ao contrário de prédios que fazem arquitetura de guerra para evitar que as pessoas acessem. 

Isso se deve à segurança?
Junto com conceitos errados da construção civil, a falta de segurança matou o urbanismo no Brasil. Temos cidades disfuncionais, pouco agradáveis, com construções cada vez mais longe do centro. O conceito de transporte também prejudicou muito. São Paulo, por exemplo, tinha 300 km de linhas de bonde nos anos 1930, daí mataram tudo, quebraram a represa e fizeram rodovias imensas, esticando a cidade. Quando há uma estrutura pesada de transporte, como o trilho, concentra a infraestrutura porque é difícil expandir, mas ao esticar a cidade por meio de avenidas, estica a infraestrutura e se constroem casas populares muito longínquas, que faz com que o morador passe 3 horas no ônibus para chegar ao emprego. Essas ideias são conceitos ideológicos, que pregam que empresários são um bando de capitalistas sedentos por dinheiro e o Estado só pensa no bem público. Não é verdade. São distorções que interferem no urbanismo. Eu acho que a cidade devia crescer organicamente, errando, acertando e evoluindo. Antigamente, as cidades eram assim, o centro de São Paulo era assim, e tudo isso se perdeu ao definirem regras genéricas. 

Pela sua experiência no B32, essa proposta dos espaços abertos, com a escultura da baleia que atrai as pessoas, tem sido positiva?
Quando apresentamos o projeto para a vizinhança e contávamos que haveria cadeiras soltas, diziam “não pode, vão roubar”. Mas pense: os brasileiros vão ao Parque Luxemburgo, em Paris, ou ao Central Park em Nova York, e não roubam cadeiras. Tem uma educação, regras. Aqui, temos que experimentar essas coisas. Ninguém roubou nenhuma cadeira. Depois de dois anos de aberto, as pessoas ainda não se sentem totalmente à vontade para usar. O que a gente chama de cidade melhor são, em parte, essas pequenas coisas, pequenos gestos, pequenas atitudes. A gente quer que a pessoa desça na hora do almoço, que ela possa sentar em uma espreguiçadeira para aproveitar um pouco de sol, ou nas cadeiras para conversar com amigos.

Deixa a cidade mais humana?
A grande fronteira do mercado imobiliário é o urbanismo. Não se tratam de 2 ou 3 quartos, mas de fazer um produto urbano e tornar a cidade mais agradável com aquele conceito da externalidade positiva e negativa, quer dizer, se todo mundo pensar assim, nós vamos melhorando a cidade, deixando-a mais aberta, onde as pessoas se sintam bem e, por consequência, valorizar todos os prédios. 

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