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O silêncio, em uma cidade grande, começa dentro de nós

Em meio à rotina acelerada da metrópole, um morador de São Paulo encontrou paz interior ao silenciar e adotar a escrita como forma de expressão.

por Daniela Pizetta

Crônica por Daniela Pizetta - Jornal aQuadra

Ultimamente, tenho falado menos e escutado mais. Acho que foi uma escolha consciente e não algo que tenha surgido naturalmente. Senti vontade de encontrar um ritmo diferente, pois nesta metrópole agitada em que vivemos, é comum seguirmos o fluxo sem questionar. Afinal, quem fala mais, ou mais alto, costuma sair na frente e se destacar. No entanto, tenho encontrado satisfação em permanecer um passo atrás e um tom a menos.

São Paulo constantemente alimentou minha curiosidade, que sempre foi intensa, e depois de 30 anos vivendo aqui, foi justamente ela o motivo que me fez valorizar o silêncio sobre o ruído. Com o tempo, passei a apreciar ainda mais as contribuições dos outros às conversas, incluindo “seus silêncios”. Percebi que me sinto confortável em apenas observar, sem sentir a necessidade de interromper com minhas próprias palavras. Tenho respondido menos e perguntado mais, escutando atentamente como as pessoas constroem suas frases e pensamentos. E isso tem me fascinado profundamente. Uma conversa aparentemente comum pode ser cativante com uma pessoa e monótona com outra, não pelo tema, mas pela seleção e arranjo das palavras. Um exemplo disso ocorreu recentemente, quando amigos vieram me visitar em casa. Um deles olhou pela janela e comentou sobre um muro alto que bloqueava a vista, enquanto o outro, ao avistar a mesma janela, sugeriu que, diante do muro, só restava imaginar o horizonte. Praticamente a mesma coisa dita de jeitos diferentes, e confesso que gostei mais do horizonte que o segundo amigo me deu.

A verdade é que desacelerar tem a ver com as diferentes fases da vida e, algumas vezes, só acontece depois de uma mudança geográfica ou um pivô profissional. Mas como não tenho a intenção de deixar a cidade nem mudar de profissão, comecei silenciando. E entre ouvir mais e falar menos, dei vida a um diário matinal. Sem regras, um dia depois do outro, fui despejando as palavras não ditas, me escutando e me surpreendendo, não só com as ideias, com os sentimentos e com as frases que iam se conectando, mas com a liberdade que um diário íntimo traz. Ah, e com as “respostas” que foram se formulando aos poucos, aquelas que nunca estiveram na cidade, mas, quase enterradas em mim.

Um ano se passou desde a primeira página e recentemente comecei a me surpreender com a velocidade da escrita e com a organização das ideias. Não sei o que a nova geração está usando no lugar de “cair a ficha”, mas, enfim, me caiu uma enorme ficha a respeito do que querem dizer os que dizem: “Quanto mais você escrever, melhor seu texto ficará”. E só agora entendi que não é sobre escrever bem ou melhor, escrever é sobre se conhecer bem. E quando isso acontece, passamos a nos expressar com maior precisão, e menos ruído. Descobrindo que as pausas e os silêncios são formas ainda mais poderosas de comunicação.

Crônica por Daniela Pizetta - Jornal aQuadra

Daniela Pizetta é diretora criativa e colaboradora de longa data da Harper’s Bazaar Brasil, além de consultora Iguatemi desde 2010. Fundadora da Zetta|Off (zettaoff), um escritório focado em desenhar narrativas para marcas e pessoas, ela frequentemente explora a relação entre natureza e cultura, destacando como esses elementos se entrelaçam e influenciam mutuamente. Seu apreço e curiosidade pela arquitetura e pelo design de qualidade adicionam valor a peças que transcendem o tempo. Em 2022, desenvolveu uma série de vídeos em homenagem à cidade de São Paulo, os quais divulga mensalmente em sua conta pessoal no Instagram (@danipizetta), a qual considera uma janela para divulgar informações culturais e pensamentos sobre viagens, criatividade e o cotidiano da vida.

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