Colecionadores de momentos - Jornal A Quadra

23 nov 2020 - 13h36 | atualizado em 31 dez 2020 01h30

aQuadra mostra, com exclusividade, a incrível reserva artística da família Yunes Guarita, que começa a ganhar ares profissionais

Por TATIANA REZENDE Fotos ROMULO FIALDINI

jornal aQuadra - estilo - Jardins
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À esquerda, Camila e Beatriz Yunes Guarita nos jardins da residência da família. Abaixo, o time de profissionais que está identificando e organizando a coleção

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Várias obras estão expostas nos ambientes da casa, no Jardim Europa. À direita, Fragmento Mestre Valentim, de São Pedro dos Clérigos, Rio de Janeiro

São Paulo está ganhando algo muito importante, um verdadeiro museu. Quem afirma é Luiz Marques, professor do departamento de história da arte da Unicamp e ex-curador-chefe do Masp. Ele é um dos curadores residentes da equipe que está iniciando os trabalhos de organização dos milhares de itens da Coleção Ivani e Jorge Yunes.

 

A coleção – que se espalha por todos os ambientes da casa da família, no Jardim Europa – é composta por dois acervos: um artístico e outro bibliográfico. O artístico tem uma variedade impressionante. Há pinturas europeias, modernistas brasileiras, cusquenhas e old masters, além de esculturas asiáticas, africanas, latino-americanas e europeias. Há ainda desenhos, tankards (canecas), mobiliário, coleções de livros e revistas raras, peças de marfim, prata, cerâmica arqueológica, marajoara e pré-colombiana.

 

Formada pelo casal ao longo dos últimos 40 anos, a coleção está sendo pesquisada, estruturada e catalogada por experts eleitos pela filha, Beatriz Yunes Guarita. “Tudo começou depois do casamento. A palavra decoração não existia. O que eles diziam era: ‘Precisamos arrumar a casa’. Minha mãe foi a grande incentivadora. Foi, inclusive, quem levou meu pai à primeira exposição”, diz Beatriz.

 

Meu avô nunca quis que a gente fotografasse ou catalogasse nada. Ele não comprava uma peça por vez, era logo o lote inteiro. Teve uma época em que a minha avó falou para ele parar, então sabe o que ele passou a fazer? Ele comprava e mandava esconder”, diverte-se a neta Camila. “Quando ele faleceu, no ano passado, minha mãe resolveu organizar”, completa.

 

nomes como Adriano Pedrosa, Agnaldo Farias, Ana Magalhães, Jochen Volz, Magnólia Costa, Marcelo Mattos Araujo, Paulo Herkenhoff, Ricardo Ohtake, Vera D’Horta e a própria Beatriz Yunes Guarita. Os curadores residentes são Luiz Marques, Percival Tirapeli e Luciano Migliaccio.

 

“Estou bem impressionado e entusiasmado porque as obras têm um valor intrínseco. A Beatriz tem sido lúcida em tentar transformar essa coleção em um ativo para São Paulo e para o Brasil”, diz Luiz Marques. Ele é o responsável pela parte referente à pintura europeia anterior a 1900. “É uma coleção enorme. Até agora, inventariei algo em torno de 400 peças, mas tem mais do que o dobro disso”, diz. “O Yunes comprava por atacado e, nessas compras, vieram itens de má qualidade e em mau estado de conservação, mas tem muito mais coisas boas.” e em mau estado de conservação, mas tem muito mais coisas boas.”

Francis Lee, diretora do núcleo Acervo e Pesquisa, com passagens por Instituto Hercule Florence, Instituto Moreira Salles e Coleção Martha e Erico Stickel, explica que foram criados dois bancos de dados. Um, acadêmico, com padrão museológico internacional desenvolvido pela Unesco, o Icom; e outro, para a interface com o público, o Artyou. Todas as obras têm, na parte de trás, um chip com informações. Cerca de 1.200 já estão catalogadas.

 

“Ele não organizava nada, mas sabia exatamente o que tinha. Uma coisa muito legal eram os caderninhos dele. Acho que encontramos uns 50. Neles, como em uma espécie de diário, ele descrevia a negociação, o perfil da pessoa que estava vendendo a obra, fazia contas e escrevia poesias. Tudo junto. Dá para perceber que o interesse dele por obras de arte ia muito além da estética. Ele foi um colecionador de momentos”, define Camila.

 

A coleção não é aberta ao público em geral. Apenas colecionadores e pesquisadores convidados – e com hora marcada – podem ter acesso às obras. Beatriz conta que já foram firmadas parcerias com museus internacionais (como o Pompidou) e instituições nacionais, como Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, Museu Paulista e MAM. Há também projetos de comodato, doação para instituições públicas e empréstimo de obras para exposições.


aspas

Ele nos preparou de forma doce e light. No fundo, sabia que a gente ia cuidar de tudo.

Camila Yunes, sobre o avô

O futuro

“Ele era muito engraçado. Fazia chamada oral nos museus. A gente querendo ir para a Disney e ele: ‘Camila, me fale sobre as pratas’. Ele nos preparou de forma doce e light. No fundo, sabia que a gente ia cuidar de tudo”, afirma Camila.

Atualmente, ela comanda a Kura, empresa de consultoria de arte especializada

na construção de coleções privadas. Um dos primeiros projetos de Camila

é o Caixa de Pandora, que vai investir no diálogo entre a Coleção Ivani e Jorge Yunes com artistas contemporâneos. “A ideia é que eles façam releitura da coleção, fazendo com que os tempos coexistam”, explica Camila. A primeira exposição – a partir de 13 de abril – é do artista carioca Barrão e permanece em cartaz por três meses. “Queremos fomentar o novo. Estamos, inclusive, planejando a criação de um prêmio da coleção para incentivar a carreira de jovens artistas.” Também estão nos planos de Camila mesas-redondas para gerar conhecimento e produzir conteúdo.

SP é arte

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Um dos primeiros diálogos da Coleção Ivani e Jorge Yunes com artistas contemporâneos e visitantes ocorre durante a 14ª edição da SP-Arte – Festival Internacional de Arte de São Paulo.

 

Em 13 de abril ,será realizada, para convidados, uma visita guiada à coleção seguida de brunch. “Acho muito legal essa ideia da Camila de usar o acervo, que tem obras até do século 19, para conversar com a contemporaneidade”, diz Fernanda Feitosa, diretora e fundadora da SP-Arte.

 

Entre os dias 11 e 15 de abril, a SPArte reúne, no Pavilhão da Bienal e em vários espaços da cidade, mais de 140 expositores. Neste ano, 40 galerias, de diversos países, apresentam alguns de seus artistas mais relevantes.

 

Fernanda destaca a Gallery Night, circuito entre galerias que antecede a abertura do evento, nos dias 9 e 10 de abril. “É uma iniciativa nossa, em parceria com as galerias, para fazer com que os visitantes descubram os bairros por meio da arte”, diz.

Galerias da Vila Madalena, de Pinheiros, do Itaim e dos Jardins funcionam até as 10 da noite para receber o público em exposições, visitas guiadas, apresentações, lançamentos de livros, coquetéis e festas.

 

“O público vai andar de uma galeria a outra. Isso cria uma vida, uma ocupação, uma segurança para a cidade. Queremos incentivar as pessoas a andar mais na rua”, explica Fernanda.

 

Ela ainda chama a atenção para as palestras gratuitas que serão realizadas na quinta e na sexta pela manhã, no Pavilhão da Bienal.

 

“A Betty Ducker, que tem uma das únicas coleções em Los Angeles voltadas à arte latino-americana, fala sobre o acervo dela, que existe há mais de dez anos. Ela tem vindo ao Brasil porque tem obras de artistas brasileiros importantes, como Hélio Oiticica, Lygia Pape e Geraldo de Barros”, conta Fernanda.

 

A programação completa da SP-Arte está disponível em sp-arte.com

Fotos: Divulgação

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